TORRE DE BELÉM

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Torre de Belém. Lisboa. Portugal. Fevereiro de 2017.

Ela parece chorar para o vento, para o mar que vira rio, para a bendita Torre de Belém que a protege. Só não protege de levar seu marido embora, embarcado numa das tantas naus que desaparecem no horizonte. Ela parece chorar, mas quando o rapaz da guitarra portuguesa dedilha, ela canta. Quando os celulares fotografam, ela atrapalha. Quando o guia oportunista tenta explicar as pequenas torres muçulmanas encurvadas naquela platitude cristã, ela parece chorar para o vento.

A.C.M.

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AS LADEIRAS ESTREITAS DE COIMBRA

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Coimbra. Portugal. Março de 2017.

O cavaleiro árabe é antigo nesse bairro. Seu avô empilhou todas essas pedras. Esqueceu de falar sobre o que tinha antes, é verdade, mas o cavaleiro cristão sabe essa parte da história. Eles não se encontrariam hoje nessa ladeira estreita se não fosse esse café e essa fadista chorosa. Ela nem percebe seu marido olhando a venezuelana exibicionista que tira as vestes de pedra enquanto as outras erguem as vestes de pano.

A.C.M.

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CONQUISTAS E FUGAS

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Lisboa. Portugal. Fevereiro de 2017.

O gordinho sai correndo com a coroa na cabeça e todos sabem que é só um um ator mentindo. O rio é tão largo que parece mar, a borda é uma reta tão longa que parece até perto chegar lá no horizonte. É preciso ficar algum tempo olhando as pedras até que elas comecem a se mover. Há uma vertigem ao lado do monumento, uma vontade de se jogar e partir, mas a cidade continua pedindo Não partam! Não partam! Mesmo porque o inverno já está quente por aqui.

A.C.M.

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O FEITO DE MARTIM MONIZ

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Lisboa. Portugal. Fevereiro de 2017.

Por onde quer que se ande neste planeta, sempre há alguma história extraordinária a escutar. Algum acontecimento estranho, terrível, belo, heróico… heróis não são tão fáceis de achar. Por isso às vezes os inventamos, criando lendas. Mas lendas são interessantes, podem servir para expressar um acontecimento ou uma personalidade que existiu de alguma forma.

A lenda ou o personagem lendário podem ser uma síntese de um pensamento dominante em certa época ou a junção de várias pessoas reais em uma só personalidade que reúne e representa características, sentimentos e hábitos vividos em algum momento longínquo, perdido no tempo.

O nome de Martim Moniz começou a ecoar em meus ouvidos aqui em Lisboa, pelas praças, ruas estreitas, maravilhosas ilustrações em azulejos e no sotaque português desse país que há mais de quinhentos anos navegou até o país que eu nasci. Mas Martim Moniz viveu muito antes disso.

No ano de 1147 ele teria executado o feito que seria lembrado até hoje, e sabe-se lá até quando. Na época, Portugal era dominada pelos Mouros há vários séculos. Como parte da Segunda Cruzada, os cavaleiros cristãos realizaram o Cerco de Lisboa para finalmente reconquistar a cidade. Conta-se que certa noite, Martim Moniz, este nobre cavaleiro cristão, sob o comando do rei D. Afonso Henriques, percebeu que um dos portões do Castelo dos Mouros estava entreaberto. O bravo Martim viu ali uma grande oportunidade e atravessou seu próprio corpo no vão do portão enquanto seus companheiros subiam as tortuosas ruelas da colina. Ao impedir o seu fechamento pelos mouros defensores, Martim sacrificou a própria vida, sendo morto por lanças, flechas e espadas. Mas permitindo assim a invasão cristã, garantindo o único grande sucesso da Segunda Cruzada.

Em homenagem ao bravo, o portão ficou conhecido como “Porta de Martim Moniz”, tornando-o um glorioso mártir cristão.

Mas um país com tão longa ocupação islâmica e cristã haveria de guardar muito da cultura de ambas. Como exemplo da cultura islâmica, temos a arte em azulejo que acabou por representar o heróismo do adversário. A partir do século XV, a pintura em azulejo viria a se tornar uma das marcas registradas na arquitetura portuguesa.

Termino meu desenho e vou descendo as tortuosas ruelas da antiga colina cristã, que se tornou moura e voltou a ser cristã. Imagino esses cavaleiros medievais transitando por aqui, entre os turistas com seus paus de selfie. Tomo uma taça de vinho em homenagem a Martim Moniz.

A.C.M.

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