AMAZÔNIA

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Amazonas. Brasil. Março de 2018.

A sucuri gigante passa quase desapercebida e o condutor do barquinho finge que não vê. Os pescadores com água até a cintura dizem que as piranhas só aparecem para comer se houver sangue! Visto de volta a camisa, não vou mergulhar hoje. Mas se você quiser eu espero, diz o condutor, fingindo que o esforço que faz para o motor pegar é só um passatempo. A palavra natureza se enche de significado enquanto puxo meu caderno e desenho, sem a pretensão do nanquim preto decodificar tudo isso.

A.C.M.

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TORRE DE BELÉM

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Torre de Belém. Lisboa. Portugal. Fevereiro de 2017.

Ela parece chorar para o vento, para o mar que vira rio, para a bendita Torre de Belém que a protege. Só não protege de levar seu marido embora, embarcado numa das tantas naus que desaparecem no horizonte. Ela parece chorar, mas quando o rapaz da guitarra portuguesa dedilha, ela canta. Quando os celulares fotografam, ela atrapalha. Quando o guia oportunista tenta explicar as pequenas torres muçulmanas encurvadas naquela platitude cristã, ela parece chorar para o vento.

A.C.M.

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TRILHAS DIFÍCEIS E PRAIAS ESCONDIDAS

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Barra da Lagoa. Florianópolis. Brasil. Agosto de 2017.

As índias nuas não ligam de passar pelos turistas alemães, loucos para tirar as meias, os tênis, as camisetas que aqui não servem para nada. O morro da Barra da Lagoa desafia quem só está passando por este sacrifício para tirar a roupa lá na praia da Galheta. Os gordos se arrependem de tanta cerveja. Esse sambaqui ainda não parece ser compreendido pelos conquistadores metalizados que passam por mim empurrando e fingindo que uma trilha mais antiga que eles não existe.

A.C.M.

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DONA JOAQUINA TURBULENTA

 

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Praia da Joaquina. Florianópolis. Brasil. Agosto de 2017.

Ela costura as rendas mais bonitas da ilha. Mas precisa ser tão perto do mar, tão lá daquele lado das pedras? As ondas daquela praia turbulenta levam embora maus nadadores, maus amores e óculos mau ajustados. A Joaquina ainda se perde nessas pedras, ainda se perde nesse mar. Olha lá como o mar explode perto dela. E já está de noite. E já não a vemos mais.

A.C.M.

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AS LADEIRAS ESTREITAS DE COIMBRA

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Coimbra. Portugal. Março de 2017.

O cavaleiro árabe é antigo nesse bairro. Seu avô empilhou todas essas pedras. Esqueceu de falar sobre o que tinha antes, é verdade, mas o cavaleiro cristão sabe essa parte da história. Eles não se encontrariam hoje nessa ladeira estreita se não fosse esse café e essa fadista chorosa. Ela nem percebe seu marido olhando a venezuelana exibicionista que tira as vestes de pedra enquanto as outras erguem as vestes de pano.

A.C.M.

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O TEATRO DOS TEATROS

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Londres. Inglaterra. Abril de 2017.

Veja quantas aberrações saem desse tal Globe Theatre! diz a velha tomando chá. Aquele mouro grandão com uns chifres na cabeça e a menina drogada querendo morrer por amor. Saio de perto dela e me aproximo para ver melhor o principezinho atormentado. Nem sonhe em se misturar àquela suruba noturna, diz o guarda bigodudo, ainda estão longe as noites de verão. Não faltam velhos depravados que se acham reis e, Ei! Espere! Melhor não falar mal das bruxas. Aqui está a sua cerveja, mister. Bebo e desenho como se escrevesse. Sinto como se visse. E parto pelas margens do Tâmisa como se soubesse para onde estou indo.

A.C.M.

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OS SEGREDOS DOS LUGARES ERMOS

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França. Fevereiro de 2017.

Não posso revelar que local é esse, ermo, quieto, deslumbrante durante o dia e mágico durante a noite. A fogueira queima ali no meio daquelas pedras antigas dispostas em círculo, imagens ancestrais gravadas, corvos guardando algo que não se vê. O cavaleiro sempre pede guarida e o dragão insiste em dizer que é feito de sombras. Essas meninas ainda vão fazer ciúme na vizinhança, mas elas não querem parar de dançar. Eu mergulho no rio gelado até voltar correndo pra minha cama quentinha, cheia do perfume dela.

A.C.M.

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