TRILHAS DIFÍCEIS E PRAIAS ESCONDIDAS

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Barra da Lagoa. Florianópolis. Brasil. Agosto de 2017.

As índias nuas não ligam de passar pelos turistas alemães, loucos para tirar as meias, os tênis, as camisetas que aqui não servem para nada. O morro da Barra da Lagoa desafia quem só está passando por este sacrifício para tirar a roupa lá na praia da Galheta. Os gordos se arrependem de tanta cerveja. Esse sambaqui ainda não parece ser compreendido pelos conquistadores metalizados que passam por mim empurrando e fingindo que uma trilha mais antiga que eles não existe.

A.C.M.

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DONA JOAQUINA TURBULENTA

 

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Praia da Joaquina. Florianópolis. Brasil. Agosto de 2017.

Ela costura as rendas mais bonitas da ilha. Mas precisa ser tão perto do mar, tão lá daquele lado das pedras? As ondas daquela praia turbulenta levam embora maus nadadores, maus amores e óculos mau ajustados. A Joaquina ainda se perde nessas pedras, ainda se perde nesse mar. Olha lá como o mar explode perto dela. E já está de noite. E já não a vemos mais.

A.C.M.

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AS LADEIRAS ESTREITAS DE COIMBRA

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Coimbra. Portugal. Março de 2017.

O cavaleiro árabe é antigo nesse bairro. Seu avô empilhou todas essas pedras. Esqueceu de falar sobre o que tinha antes, é verdade, mas o cavaleiro cristão sabe essa parte da história. Eles não se encontrariam hoje nessa ladeira estreita se não fosse esse café e essa fadista chorosa. Ela nem percebe seu marido olhando a venezuelana exibicionista que tira as vestes de pedra enquanto as outras erguem as vestes de pano.

A.C.M.

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O TEATRO DOS TEATROS

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Londres. Inglaterra. Abril de 2017.

Veja quantas aberrações saem desse tal Globe Theatre! diz a velha tomando chá. Aquele mouro grandão com uns chifres na cabeça e a menina drogada querendo morrer por amor. Saio de perto dela e me aproximo para ver melhor o principezinho atormentado. Nem sonhe em se misturar àquela suruba noturna, diz o guarda bigodudo, ainda estão longe as noites de verão. Não faltam velhos depravados que se acham reis e, Ei! Espere! Melhor não falar mal das bruxas. Aqui está a sua cerveja, mister. Bebo e desenho como se escrevesse. Sinto como se visse. E parto pelas margens do Tâmisa como se soubesse para onde estou indo.

A.C.M.

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OS SEGREDOS DOS LUGARES ERMOS

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França. Fevereiro de 2017.

Não posso revelar que local é esse, ermo, quieto, deslumbrante durante o dia e mágico durante a noite. A fogueira queima ali no meio daquelas pedras antigas dispostas em círculo, imagens ancestrais gravadas, corvos guardando algo que não se vê. O cavaleiro sempre pede guarida e o dragão insiste em dizer que é feito de sombras. Essas meninas ainda vão fazer ciúme na vizinhança, mas elas não querem parar de dançar. Eu mergulho no rio gelado até voltar correndo pra minha cama quentinha, cheia do perfume dela.

A.C.M.

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TEMPLÁRIOS PORTUGUESES

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Tomar. Portugal. Março 2017.

Chega mais pra lá e vai abrindo outro vinho, me diz o cavaleiro com a boca cheia da laranja mais suculenta do mundo. Seu escudeiro vem correndo lá do laranjal e o instiga a falar mais, mesmo cuspindo e rindo. Outro cavaleiro se junta ao grupo, tapando minha visão. Deslizo pelos bancos revestidos de azulejo desenhado, tentando não perder o traço que marca a proporção do Convento de Cristo. As aventuras cheias de sangue, rezas e glórias vazam das bocas embriagadas e alaranjadas enquanto o frei carola, gordo de preguiça e reza, já vem vindo nos repreender.

A.C.M.

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UM ESTRIPADOR

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Londres. Inglaterra. Abril de 2017.

O beco ainda é sinistro. Escuro, isolado, mesmo no meio de tudo. As prostitutas passam esbarrando nas moças direitas que não tiram os olhos dos celulares. Os rapazes cansam de jogar olhares e palavras tortas para elas e investem pesado nos pints, que sempre os levarão a outros becos escuros. Ninguém nota a moça degolada cirurgicamente, caída num canto. Mas tiram fotos do grafitti que decora a escuridão. É então que um tipo soturno, de cartola cobrindo os olhos, passa por mim guardando algo dentro do sobretudo. Um reflexo das lamparinas amareladas incide no objeto. Pode até ser uma faca afiada, mas não há como saber, ainda que sejam bem visíveis, em suas mangas puídas, os respingos de sangue, e eu peço outra dose.

A.C.M.

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