O TEATRO DOS TEATROS

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Londres. Inglaterra. Abril de 2017.

Veja quantas aberrações saem desse tal Globe Theatre! diz a velha tomando chá. Aquele mouro grandão com uns chifres na cabeça e a menina drogada querendo morrer por amor. Saio de perto dela e me aproximo para ver melhor o principezinho atormentado. Nem sonhe em se misturar àquela suruba noturna, diz o guarda bigodudo, ainda estão longe as noites de verão. Não faltam velhos depravados que se acham reis e, Ei! Espere! Melhor não falar mal das bruxas. Aqui está a sua cerveja, mister. Bebo e desenho como se escrevesse. Sinto como se visse. E parto pelas margens do Tâmisa como se soubesse para onde estou indo.

A.C.M.

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TEMPLÁRIOS PORTUGUESES

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Tomar. Portugal. Março 2017.

Chega mais pra lá e vai abrindo outro vinho, me diz o cavaleiro com a boca cheia da laranja mais suculenta do mundo. Seu escudeiro vem correndo lá do laranjal e o instiga a falar mais, mesmo cuspindo e rindo. Outro cavaleiro se junta ao grupo, tapando minha visão. Deslizo pelos bancos revestidos de azulejo desenhado, tentando não perder o traço que marca a proporção do Convento de Cristo. As aventuras cheias de sangue, rezas e glórias vazam das bocas embriagadas e alaranjadas enquanto o frei carola, gordo de preguiça e reza, já vem vindo nos repreender.

A.C.M.

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UM ESTRIPADOR

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Londres. Inglaterra. Abril de 2017.

O beco ainda é sinistro. Escuro, isolado, mesmo no meio de tudo. As prostitutas passam esbarrando nas moças direitas que não tiram os olhos dos celulares. Os rapazes cansam de jogar olhares e palavras tortas para elas e investem pesado nos pints, que sempre os levarão a outros becos escuros. Ninguém nota a moça degolada cirurgicamente, caída num canto. Mas tiram fotos do grafitti que decora a escuridão. É então que um tipo soturno, de cartola cobrindo os olhos, passa por mim guardando algo dentro do sobretudo. Um reflexo das lamparinas amareladas incide no objeto. Pode até ser uma faca afiada, mas não há como saber, ainda que sejam bem visíveis, em suas mangas puídas, os respingos de sangue, e eu peço outra dose.

A.C.M.

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CONQUISTAS E FUGAS

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Lisboa. Portugal. Fevereiro de 2017.

O gordinho sai correndo com a coroa na cabeça e todos sabem que é só um um ator mentindo. O rio é tão largo que parece mar, a borda é uma reta tão longa que parece até perto chegar lá no horizonte. É preciso ficar algum tempo olhando as pedras até que elas comecem a se mover. Há uma vertigem ao lado do monumento, uma vontade de se jogar ao mar e partir, mas a cidade continua pedindo Não partam! Não partam! A aventura os levará para longe mas a saudade os trará de volta!

A.C.M.

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CATARATAS

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Foz do Iguaçu. Brasil. Janeiro de 2017

Os filetes de água atravessam cidades, estados, regiões inteiras. Olha ali, o Rio Iguaçu, os pais dizem aos filhos, que um dia hão de crescer também, e fazer a grande viagem até os filetes que viram cataratas, grande águas que vertem, poderosas e eternas. Para os bichos, tudo isso é um lar. A onça pode até dar as caras se tiver fome, senão nem liga para os inúmeros pares de pernas nas plataformas elevadas, o seu quintal. Desde o Cabeza de Vaca, quinhentos anos de lágrimas desapercebidas escondem a grande emoção de se sentir pequeno diante do aguaceiro.

A.C.M.

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NAS MURALHAS DO CONVENTO DE CRISTO

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Tomar. Portugal. Março de 2017.

O vento assobia por entre as muralhas antigas. Um templário boa gente me leva até a torre de vigia. Vejo todo o vale, a cidade que não mudou muito nesse tempo todo, as oliveiras devem até ser as mesmas. Rabisco o cavaleiro que acaba de entrar, fazendo uma saudação amigável, a mesma de mil anos atrás. O Convento de Cristo ficou mais charmoso com a idade. Eu voltaria aqui à noite para tentar pular aquele portão da frente, parece baixo visto daqui. A rampa de acesso parece tranquila sem as flechas, as  lanças e as espadas querendo me acertar. Os fantasmas guerreiros, no entanto, talvez me olhem com reprovação. Afinal de contas, a bandeira com o símbolo continua a tremular.

A.C.M.

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VILA VELHA SUBMERSA

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Vila Velha. Paraná. Brasil. Janeiro de 2017.

Caminho por essa vila submersa, agora seca, quente. Tento copiar o desenho feito pelo vento que estava só esperando a maré baixar, e quanto tempo durou. Os peixes sentiram saudade desse pedaço e foram contando para as futuras gerações como era bonito e misterioso aquele fundo de mar. A taça tinha outra forma, ainda maior, e era conhecida por outro nome, mas a Vila Velha é mais velha que seu próprio nome, e a cada século, se renova.

A.C.M.

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