O QUE O MAR TRAZ

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Salvador. Outubro de 2018.

Fugindo da fumaça, do asfalto e dos barracos encostados em prédios novos, tentando achar a Salvador do meu imaginário, me refugio na Praia da Paciência. Distraído com o mar, quase piso na pança do Vinícius e daquela moça com cabelo na cara. Tento não chegar muito perto da índia que carrega seu almoço e que pára, atenta, observando o outro náufrago que acabou de chegar nem mesmo ele sabe daonde. Deve ser mais um desses portugueses procurando o paraíso na terra. Me sento na areia quente e espero a pele esquentar. Quando entro no mar refrescante, Caramuru e Paraguaçu já estão trocando ideia, pois a moça com cabelo na cara já começou a cantar.

A.C.M.

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AS AMARRAS DO GOLDEN HIND

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Londres. Março de 2017.

O elegante galeão parece entediado aqui, como se estivesse encalhado. Aqui, amarrado, amordaçado, sendo mostrado como um animal engaiolado a esses bêbados que disputam um lugar para observar os prédios sem vida e o rio murcho. Os turistas desavisados mal sabem que ele percorreu o mundo sobre as ondas e que sua fama ecoou tão forte pelos ventos do tempo que nem é ele mesmo quem está aqui, mas sua réplica. Entro no Golden Hind sem muitas expectativas, mas qual a minha surpresa quando sinto ele balançar entre as ondas, ouço gritos roucos e vejo os marujos acendendo os canhões enquanto Sir Francis Drake acorda em sua cama lá na popa. Participo de uma reunião tensa no escritório iluminado por lampiões e então já é tempo de desembarcar. Já indo embora, olho para trás e vejo Drake brindando com os bêbados do porto, e o Golden Hind já parece menos entediado.

A.C.M.

“AO REDOR DESTA IGREJA”

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Vitória. Brasil. Outubro de 2017.

Esbarro mais uma vez no padre Anchieta, apontando com a certeza de que esse é o local em que a igreja deve ser construída. O povoado deve crescer ao redor dela, mas um Goitacá olha desconfiado das escadarias e uma moça Aimoré perde as esperanças de ser notada. Um navio enorme passa pela avenida aquática, fazendo-a quase parecer pequena. O gigante flutuante leva tatuado um nome maldito em suas coxas. O mar sempre abre caminho, mas vez ou outra volta para tomar o que é seu, e Yemanjá aproveita a deixa para atravessar a rua antes que seja tarde demais.

A.C.M.

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NAS MURALHAS DO CONVENTO DE CRISTO

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Tomar. Portugal. Março de 2017.

O vento assobia por entre as muralhas antigas. Um templário boa gente me leva até a torre de vigia. Vejo todo o vale, a cidade que não mudou muito nesse tempo todo, as oliveiras devem até ser as mesmas. Rabisco o cavaleiro que acaba de entrar, fazendo uma saudação amigável, a mesma de mil anos atrás. O Convento de Cristo ficou mais charmoso com a idade. Eu voltaria aqui à noite para tentar pular aquele portão da frente, parece baixo visto daqui. A rampa de acesso parece tranquila sem as flechas, as  lanças e as espadas querendo me acertar. Os fantasmas guerreiros, no entanto, talvez me olhem com reprovação. Afinal de contas, a bandeira com o símbolo continua a tremular.

A.C.M.

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TIBIRIÇÁ E ANCHIETA

 

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São Paulo. Brasil. Maio de 2016.

Tibiriçá foi um importante líder indígena brasileiro, chefe da tribo dos guaianases. Habitava a região onde hoje existe a monstruosa metrópole chamada São Paulo.

Em 1553 os padres jesuítas José de Anchieta e Manoel da Nóbrega subiram a Serra do Mar e se instalaram exatamente neste local, afim ter um local seguro para catequizarem os índios. Aqui parecia o local ideal também por ter “ares frios e temperados como os de Espanha” e “uma terra mui sadia, fresca e de boas águas”.

Aqui, índio e padre entraram num acordo e deram início a uma cidade tão próspera quanto decadente, bela e feia, surpreendente e cansativa. Sem dúvida, São Paulo mudou o ritmo da selva e dos campos, numa explosão de atividade humana.

Uma missa foi celebrada no dia 25 de janeiro de 1554, data que marca o aniversário de São Paulo. Quase cinco séculos depois, o povoado de Piratininga se transformou numa cidade de 11 milhões de habitantes. Daqueles tempos, restam apenas as fundações da construção feita pelos padres e índios no Pateo do Collegio.

Hoje, a Catedral da Sé e o Marco Zero marcam o local do início deste novo pequeno mundo.

Para ver o padre Anchieta, caminho pela praça da Sé onde há sua estátua. Para ver o índio Tibiriçá, entro na Catedral e desço até a cripta. Lá, em meio a túmulos de padres e bispos, está o túmulo do índio, o primeiro cidadão da cidade de São Paulo.

A.C.M.


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“ELES JÁ ESTAVAM AQUI”

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Rio de Janeiro. Brasil. Setembro de 2016.

Diferente dos cavaleiros navegadores, chego até o Rio por terra. E me deslumbro com o mar de Copacabana, e vejo os navios conquistadores despontando ao longe, e vejo os índios olhando tudo aquilo, curiosos, estralando suas latinhas de cerveja para combater o calor, assistindo ao futebol na praia, pensando em talvez um dia partir e também descobrir algum outro lugar. Mas nenhum lugar será como aqui, nem mesmo este lugar será.

A.C.M.