AO REDOR DO COLISEU

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Roma. Itália. Fevereiro de 2017.

Caminho ao redor do Coliseu, o sol quente contrasta com o vento frio. É o fim do inverno. Aquele tigre já deve estar sentindo calor, penso. Mas ele encontra forças para avançar no gladiador distraído, que passava um papo na filha daquele nobre esnobe. Que estranho bicho de estimação! A francesa tão blasé se admira e eu quase perco de ver o pistoleiro americano puxando a máquina fotográfica na rapidez de um turista japonês. O romano gordinho solta o cigarro que tentava fazer enganar sua idade. Ninguém está vendo essas marcas de tiro? diz a professora responsável pela excursão da quinta série. Pouca gente lá em cima nota. Estão preocupados com as ruínas vazias da arena que tenta reaver sua glória.

A.C.M.

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VILA VELHA SUBMERSA

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Vila Velha. Paraná. Brasil. Janeiro de 2017.

Caminho por essa vila submersa, agora seca, quente. Tento copiar o desenho feito pelo vento que estava só esperando a maré baixar, e quanto tempo durou. Os peixes sentiram saudade desse pedaço e foram contando para as futuras gerações como era bonito e misterioso aquele fundo de mar. A taça tinha outra forma, ainda maior, e era conhecida por outro nome, mas a Vila Velha é mais velha que seu próprio nome, e a cada século, se renova.

A.C.M.

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VOLTAS NO CIRCO MÁXIMO

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Roma. Itália. Fevereiro de 2017.

Vejo um campo longo, ovalado, quase deserto, numa parte um pouco mais afastada do burburinho turístico de Roma. Dou uma volta olhando as grandes ruínas ao lado. Demoro um pouco para entender que ali era parte do Palácio Imperial, daonde o imperador tinha uma vista privilegiada da maior arena da antiga cidade, onde a multidão se reunia para assistir às corridas de biga.

Ainda antes dos romanos, os reis etruscos já utilizavam o local para jogos e entretenimento. Os romanos ampliaram e fizeram adaptações para a população que crescia.

Ouço as rodas a girar, o chicote e o tropel dos cavalos. Imagino a euforia do público onde agora só se ouve o som do vento. Desenho as ruínas ao fundo, que insistem em continuar grandiosas.

Começa uma garoa fina. A arena está mais solitária do que nunca. Vai escurecendo e meu nanquim vai acabando.

A.C.M.

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O FEITO DE MARTIM MONIZ

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Lisboa. Portugal. Fevereiro de 2017.

Por onde quer que se ande neste planeta, sempre há alguma história extraordinária a escutar. Algum acontecimento estranho, terrível, belo, heróico… heróis não são tão fáceis de achar. Por isso às vezes os inventamos, criando lendas. Mas lendas são interessantes, podem servir para expressar um acontecimento ou uma personalidade que existiu de alguma forma.

A lenda ou o personagem lendário podem ser uma síntese de um pensamento dominante em certa época ou a junção de várias pessoas reais em uma só personalidade que reúne e representa características, sentimentos e hábitos vividos em algum momento longínquo, perdido no tempo.

O nome de Martim Moniz começou a ecoar em meus ouvidos aqui em Lisboa, pelas praças, ruas estreitas, maravilhosas ilustrações em azulejos e no sotaque português desse país que há mais de quinhentos anos navegou até o país que eu nasci. Mas Martim Moniz viveu muito antes disso.

No ano de 1147 ele teria executado o feito que seria lembrado até hoje, e sabe-se lá até quando. Na época, Portugal era dominada pelos Mouros há vários séculos. Como parte da Segunda Cruzada, os cavaleiros cristãos realizaram o Cerco de Lisboa para finalmente reconquistar a cidade. Conta-se que certa noite, Martim Moniz, este nobre cavaleiro cristão, sob o comando do rei D. Afonso Henriques, percebeu que um dos portões do Castelo dos Mouros estava entreaberto. O bravo Martim viu ali uma grande oportunidade e atravessou seu próprio corpo no vão do portão enquanto seus companheiros subiam as tortuosas ruelas da colina. Ao impedir o seu fechamento pelos mouros defensores, Martim sacrificou a própria vida, sendo morto por lanças, flechas e espadas. Mas permitindo assim a invasão cristã, garantindo o único grande sucesso da Segunda Cruzada.

Em homenagem ao bravo, o portão ficou conhecido como “Porta de Martim Moniz”, tornando-o um glorioso mártir cristão.

Mas um país com tão longa ocupação islâmica e cristã haveria de guardar muito da cultura de ambas. Como exemplo da cultura islâmica, temos a arte em azulejo que acabou por representar o heróismo do adversário. A partir do século XV, a pintura em azulejo viria a se tornar uma das marcas registradas na arquitetura portuguesa.

Termino meu desenho e vou descendo as tortuosas ruelas da antiga colina cristã, que se tornou moura e voltou a ser cristã. Imagino esses cavaleiros medievais transitando por aqui, entre os turistas com seus paus de selfie. Tomo uma taça de vinho em homenagem a Martim Moniz.

A.C.M.

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BREU ARGENTINO

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Iguazu. Argentina. Janeiro de 2017.

-Buenas noches – diz o guarda de fronteira.

-Boa noite – respondo eu.

Não responder em espanhol foi o suficiente para eu quase ser barrado na fronteira argentina. Por fim o guarda me deixa entrar com a promessa de sair da Argentina em 72 horas. Sei que não vou precisar de tanto.

Entro de carro na cidade de Iguazu, apenas para ter um gostinho da terra dos hermanos. Estamos ao lado das grandes cataratas, muita água que gera energia elétrica. Aqui, no entanto, logo após entrar na Argentina e passar pelo cassino à moda antiga, acaba a luz, e tudo é breu.

Estaciono meu carro sem seguro e com problema de ignição em algum lugar, busco algum ponto de luz que tenha cerveja Quilmes e tapas argentinas. Está calor, o bar é quente e abafado. A boa cerveja alivia, mas a rua escura lá fora está mais agradável. Vejo pouco da Argentina, então olho muito para a lua. Ouço diferentes tipos de tango pairando no ar. Lembro das vezes que vi ele sendo dançado.

Fecho os olhos e troco um beijo.

A.C.M.

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ENTRE AS RUÍNAS DO IMPÉRIO ROMANO

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Roma. Itália. Fevereiro de 2017.

Muitas viagens podem ser feitas em Roma. Ver as velhas pedras que sobraram do grande império romano é o que mais me faz sonhar. Sem saber por onde começar, decido me guiar espontanemante e o que mais me chama atenção são dois conjuntos próximos de colunas. Um deles trata-se do Templo de Saturno, cuja construção se iniciou ainda antes da inauguração da república romana. O outro conjunto de colunas é templo construído em homenagem ao imperador Vespasiano, por seus filhos Tito e Domiciano, pertencentes à dinastia flaviana. A obra foi concluída em 87 d.C.

Vespasiano foi quem mandou construir o Coliseu, aterrando o extravagente lago artificial feito por Nero anos antes. Claro que muitos desses monumetos, senão todos, eram comemorações e homenagens às conquistas romanas em terras estrangeiras ou monumentos destinados a fortalecer a influência das famílias dos imperadores. De qualquer forma, olhar as construções e andar pelas ruas romanas de dois mil anos atrás é fantástico.

Aqui, rodeado destas velhas pedras rachadas, é inevitável pensar que isso tudo foi apenas mais um império que ruiu. Porém, pensando bem, ainda falamos uma derivação da língua desse império. Bebemos o mesmo vinho, temos o mesmo gosto pela elegância, a mesma luxúria exagerada. Sem falar que, estar aqui e caminhar tranquilamente sobre as ruínas do que um dia foi o centro do mundo, parece ser uma forma de conquista.

A.C.M.

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ORADOUR-SUR-GLANE

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Oradour-sur-Glane. França. Dezembro de 2015.

Vejo o vilarejo destruído de Oradour-sur-Glane num dia frio e silencioso de dezembro.

Localizado na Haute-Vienne, foi um dos muitos vilarejos franceses ocupados pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial mas, em 10 de junho de 1944, um batalhão da SS nazista cometeu aqui o maior massacre de civis da França ocupada. E esse evento ficou conhecido como O Massacre de Oradour-sur-Glane.

Caminhando pelas ruas estreitas do que parece ter sido uma bela e aconchegante vizinhança, vejo o que sobrou das casas, carros, padarias, barbearias e lojas comerciais incendiadas, ainda com suas placas indicativas. Nada foi mudado, tocado ou restaurado. As ruínas de lares com seus detalhes familiares denunciam a barbárie do crime.

Foram 642 vítimas no total. Homens foram levados a lugares específicos para serem fuzilados enquanto as mulheres e crianças foram trancadas na velha igreja que foi incendiada pelos nazistas. O ato teria sido cometido já na iminência da liberação francesa, o que leva a pensar em um ato de cruel vingança e ódio por parte dos alemães.

O vilarejo de Oradour-sur-Glane permanece aqui como um museu a céu aberto mostrando de forma crua e real a violência humana. Para que não nos esqueçamos das atrocidades de que somos capazes.

A.C.M.

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