O DUELO DE SAINT-MALO

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Saint-Malo. França. Abril de 2017.

Caminho pelas ruelas desta cidade fundada no século I a.C., fortificada pelos romanos para depois ganhar essas altas muralhas já no século XII. Muralhas que foram, assim como as casas e prédios e ruas, destruídas pelos bombardeios americanos durante a Segunda Guerra Mundial e depois reconstruídas com as mesmas pedras após a libertação da França.

Por aqui passaram diversos personagens ilustres, entre eles Jacques Cartier, o descobridor do Canadá, o casal brasileiro Caramuru e Paraguaçu, no século XVI, sem falar nos inúmeros piratas que aportavam por aqui entre idas e vindas ao redor do mundo.

A maré está baixa, desço das muralhas por uma escada de pedra e atravesso uma grande faixa de areia que me leva até outra ilhota em cima da qual foi construído o Fort-Royal. Me apoio nas muralhas que dão vista para a silhueta de Saint-Malo e fico sabendo que ocorreu aqui, no começo do século XIX, um famoso duelo entre o corsário Robert Surcouf e outros doze oficiais do exército prussiano. Há um relato sobre o ocorrido:

(em livre tradução)

“Certa manhã, no outono de 1816, quando os aliados ainda ocupavam a França, Surcouf estava em Saint-Malo, no café Café Joseph, Place Duguay-Trouin, em frente à subprefeitura, com os seus parceiros habituais, Mr. Mainville, um ex-emigrante, e seu velho amigo Brisebarre. Todas as manhãs Surcouf vinha ali fumando seu cachimbo, para tomar um aperitivo, ler o jornal e jogar bilhar. Naquele dia, enquanto Surcouf estava jogando, a porta se abriu, dando passagem a uma dúzia de oficiais prussianos de Wrangel, regimento que fora estacionado em Dinan. Eles entraram fazendo barulho, tilintando suas esporas e puxando seus sabres, como se o Café Joseph fosse deles. Um dos oficiais esbarra em Surcouf, que murmura algo, irritado. Há uma discussão. Surcouf, o  taco de bilhar à mão, depois de ameaçar acariciar os rostos dos oficiais, termina a discussão desafiando todos os doze para um duelo. Foi um evento épico, digno de Cornic. A maré estava baixa, foram todos até Fort Royal, perto de Grand Be. As testemunhas de Surcouf eram Mainville e Brisabarre. Surcouf corta o pulso de seu primeiro adversário. Ele fere o segundo e o terceiro com a mesma desenvoltura. O quarto tem a barriga aberta num golpe. Todos, até o décimo primeiro, caem mais ou menos feridos. Então, Surcouf se vira para seu último adversário e diz: “Vamos parar por aqui, se você quiser, senhor. É bom que você possa dizer em seu país como um velho soldado de Napoleão luta”.

– Louis Gallouédec, Inspetor Geral.

(Original em francês)

“Un matin de l’automne de 1816, à l’époque où les Alliés occupaient encore la France envahie, Surcouf se trouvait à Saint-Malo, au café, le café Joseph, place Duguay-Trouin, en face de la sous-préfecture, avec ses partenaires habituels, M. de Mainville, un ancien émigré, et son vieil ami Brisebarre : chaque matin, Surcouf venait là fumer sa pipe, prendre un verre, parcourir la gazette et jouer au billard. Ce jour-là, tandis que Surcouf faisait sa partie, la porte s’ouvre, donnant passage à une douzaine d’officiers prussiens du régiment de Wrangel qui tenait garnison à Dinan. Ils entrent bruyamment, faisant tinter leurs éperons et donner leurs sabres, traitant le café Joseph en pays conquis. L’un d’eux, en passant, bouscule Surcouf qui grogne et se fâche. On s’invective de part et d’autre. Surcouf, sa queue de billard à la main, après les avoir menacés de leur caresser la figure, termine la discussion en provoquant en duel tous les officiers prussiens. Ce fut un duel épique, digne de celui de Cornic. La marée était basse. Séance tenante on se rendit derrière le Fort-Royal, près le Grand Bé ; les témoins de Surcouf étaient de Mainville et Brisabarre. Surcouf tranche net le poignet de son premier adversaire. Il « démâte » le second et le troisième avec la même désinvolture. Le quatrième a le ventre ouvert d’un coup de banderole. Tous, jusqu’au onzième, tombent plus ou moins blessés. Alors, Surcouf se tournant vers son dernier adversaire : « Restons-en là, si vous voulez bien, monsieur. Il est bon que vous puissiez raconter en votre pays comment se bat un ancien soldat de Napoléon.”

– Louis Gallouédec, inspecteur général de l’Enseignement

A.C.M.

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