VENTO MORNO DO PARAÍSO

portosegurocabral-peqPorto Seguro. Bahia. Brasil. Agosto de 2018.

Os turistas ainda não tinham entendido nada antes de entrar pelos porões da Nau e subirem as escadarias estreitas, apoiando-se nos marinheiros sujos e cansados. Ainda chamam este antiga nave espacial de Caravela, e ainda acham que Pedro Álvares Cabral era baixinho e burro. Mas eu, ao passar ao seu lado no convés, tenho que olhar para cima. E vejo os olhos do Comandante, fixos na praia que se aproxima. Os marujos recolhem as velas enquanto se desvencilham de suas pesadas armaduras, pois o vento da terra prometida é morno e agradável.

A.C.M.

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O QUE O MAR TRAZ

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Salvador. Outubro de 2018.

Fugindo da fumaça, do asfalto e dos barracos encostados em prédios novos, tentando achar a Salvador do meu imaginário, me refugio na Praia da Paciência. Distraído com o mar, quase piso na pança do Vinícius e daquela moça com cabelo na cara. Tento não chegar muito perto da índia que carrega seu almoço e que pára, atenta, observando o outro náufrago que acabou de chegar nem mesmo ele sabe daonde. Deve ser mais um desses portugueses procurando o paraíso na terra. Me sento na areia quente e espero a pele esquentar. Quando entro no mar refrescante, Caramuru e Paraguaçu já estão trocando ideia, pois a moça com cabelo na cara já começou a cantar.

A.C.M.

AS AMARRAS DO GOLDEN HIND

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Londres. Março de 2017.

O elegante galeão parece entediado aqui, como se estivesse encalhado. Aqui, amarrado, amordaçado, sendo mostrado como um animal engaiolado a esses bêbados que disputam um lugar para observar os prédios sem vida e o rio murcho. Os turistas desavisados mal sabem que ele percorreu o mundo sobre as ondas e que sua fama ecoou tão forte pelos ventos do tempo que nem é ele mesmo quem está aqui, mas sua réplica. Entro no Golden Hind sem muitas expectativas, mas qual a minha surpresa quando sinto ele balançar entre as ondas, ouço gritos roucos e vejo os marujos acendendo os canhões enquanto Sir Francis Drake acorda em sua cama lá na popa. Participo de uma reunião tensa no escritório iluminado por lampiões e então já é tempo de desembarcar. Já indo embora, olho para trás e vejo Drake brindando com os bêbados do porto, e o Golden Hind já parece menos entediado.

A.C.M.

“AO REDOR DESTA IGREJA”

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Vitória. Brasil. Outubro de 2017.

Esbarro mais uma vez no padre Anchieta, apontando com a certeza de que esse é o local em que a igreja deve ser construída. O povoado deve crescer ao redor dela, mas um Goitacá olha desconfiado das escadarias e uma moça Aimoré perde as esperanças de ser notada. Um navio enorme passa pela avenida aquática, fazendo-a quase parecer pequena. O gigante flutuante leva tatuado um nome maldito em suas coxas. O mar sempre abre caminho, mas vez ou outra volta para tomar o que é seu, e Yemanjá aproveita a deixa para atravessar a rua antes que seja tarde demais.

A.C.M.

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AO REDOR DO COLISEU

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Roma. Itália. Fevereiro de 2017.

Caminho ao redor do Coliseu, o sol quente contrasta com o vento frio. É o fim do inverno. Aquele tigre já deve estar sentindo calor, penso. Mas ele encontra forças para avançar no gladiador distraído, que passava um papo na filha daquele nobre esnobe. Que estranho bicho de estimação! A francesa tão blasé se admira e eu quase perco de ver o pistoleiro americano puxando a máquina fotográfica na rapidez de um turista japonês. O romano gordinho solta o cigarro que tentava fazer enganar sua idade. Ninguém está vendo essas marcas de tiro? diz a professora responsável pela excursão da quinta série. Pouca gente lá em cima nota. Estão preocupados com as ruínas vazias da arena que tenta reaver sua glória.

A.C.M.

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O DUELO DE SAINT-MALO

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Saint-Malo. França. Abril de 2017.

Não foi aqui no Fort-Royal que aconteceu? pergunto a Robert, que passa andando apressado. Surcouf! diz ele, Surcouf! Me apoio nas muralhas que dão vista para a silhueta de Saint-Malo. Ele resolve dar um tempo na frente da minha garrafa de vinho e eu o ouço se gabar: Tava eu, Mainville e Brisebarre naquela pocilga do Café Joseph. Eles que entraram eram doze, prussianos filhos da puta! Batiam as esporas, latiam em alemão. Só esperei um deles esbarrar em mim pra iniciar o fogaréu. Desafiei todos os doze para um duelo. Cortei o pulso do primeiro. Feri o segundo e o terceiro com a mesma desenvoltura. O quarto abri a barriga num golpe. Todos, até o décimo primeiro, caíram. Então me virei para o último e disse a ele: “Vamos parar por aqui, se você quiser, senhor. É bom que você possa dizer em seu país como um velho soldado de Napoleão luta.” Surcouf me deu uma piscadela e esvaziou mais uma taça.

A.C.M.

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AMAZÔNIA

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Amazonas. Brasil. Março de 2018.

A sucuri gigante passa quase desapercebida e o condutor do barquinho finge que não vê. Os pescadores com água até a cintura dizem que as piranhas só aparecem para comer se houver sangue! Visto de volta a camisa, não vou mergulhar hoje. Mas se você quiser eu espero, diz o condutor, fingindo que o esforço que faz para o motor pegar é só um passatempo. A palavra natureza se enche de significado enquanto puxo meu caderno e desenho, sem a pretensão do nanquim preto decodificar tudo isso.

A.C.M.

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