TURISTAS E GLADIADORES

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Roma. Itália. Fevereiro de 2017.

Inaugurado em 80 d.C., o Coliseu continua recebendo visitantes, talvez mais do que em qualquer outra época. Os gladiadores continuam sendo os protagonistas do imaginário de quem entra pelos arcos de pedras antigas. Pedras sobreviventes de incêndios e terremotos, sobreviventes do tempo.

Os gladiadores também sobreviveram ao tempo e continuam a lutar nas mentes dos milhares de turistas que andam pelas arquibancadas em ruínas.

Caminho ao redor do Coliseu e me apoio em algumas velhas pedras abandonadas para desenhar um bom ângulo. Os turistas são atenciosos e se desviam do meu raio de visão, mas o gladiador faz questão de estar lá.

A.C.M.

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O DUELO DE SAINT-MALO

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Saint-Malo. França. Abril de 2017.

Caminho pelas ruelas desta cidade fundada no século I a.C., fortificada pelos romanos para depois ganhar essas altas muralhas já no século XII. Muralhas que foram, assim como as casas e prédios e ruas, destruídas pelos bombardeios americanos durante a Segunda Guerra Mundial e depois reconstruídas com as mesmas pedras após a libertação da França.

Por aqui passaram diversos personagens ilustres, entre eles Jacques Cartier, o descobridor do Canadá, o casal brasileiro Caramuru e Paraguaçu, no século XVI, sem falar nos inúmeros piratas que aportavam por aqui entre idas e vindas ao redor do mundo.

A maré está baixa, desço das muralhas por uma escada de pedra e atravesso uma grande faixa de areia que me leva até outra ilhota em cima da qual foi construído o Fort-Royal. Me apoio nas muralhas que dão vista para a silhueta de Saint-Malo e fico sabendo que ocorreu aqui, no começo do século XIX, um famoso duelo entre o corsário Robert Surcouf e outros doze oficiais do exército prussiano. Há um relato sobre o ocorrido:

(em livre tradução)

“Certa manhã, no outono de 1816, quando os aliados ainda ocupavam a França, Surcouf estava em Saint-Malo, no café Café Joseph, Place Duguay-Trouin, em frente à subprefeitura, com os seus parceiros habituais, Mr. Mainville, um ex-emigrante, e seu velho amigo Brisebarre. Todas as manhãs Surcouf vinha ali fumando seu cachimbo, para tomar um aperitivo, ler o jornal e jogar bilhar. Naquele dia, enquanto Surcouf estava jogando, a porta se abriu, dando passagem a uma dúzia de oficiais prussianos de Wrangel, regimento que fora estacionado em Dinan. Eles entraram fazendo barulho, tilintando suas esporas e puxando seus sabres, como se o Café Joseph fosse deles. Um dos oficiais esbarra em Surcouf, que murmura algo, irritado. Há uma discussão. Surcouf, o  taco de bilhar à mão, depois de ameaçar acariciar os rostos dos oficiais, termina a discussão desafiando todos os doze para um duelo. Foi um evento épico, digno de Cornic. A maré estava baixa, foram todos até Fort Royal, perto de Grand Be. As testemunhas de Surcouf eram Mainville e Brisabarre. Surcouf corta o pulso de seu primeiro adversário. Ele fere o segundo e o terceiro com a mesma desenvoltura. O quarto tem a barriga aberta num golpe. Todos, até o décimo primeiro, caem mais ou menos feridos. Então, Surcouf se vira para seu último adversário e diz: “Vamos parar por aqui, se você quiser, senhor. É bom que você possa dizer em seu país como um velho soldado de Napoleão luta”.

– Louis Gallouédec, Inspetor Geral.

(Original em francês)

“Un matin de l’automne de 1816, à l’époque où les Alliés occupaient encore la France envahie, Surcouf se trouvait à Saint-Malo, au café, le café Joseph, place Duguay-Trouin, en face de la sous-préfecture, avec ses partenaires habituels, M. de Mainville, un ancien émigré, et son vieil ami Brisebarre : chaque matin, Surcouf venait là fumer sa pipe, prendre un verre, parcourir la gazette et jouer au billard. Ce jour-là, tandis que Surcouf faisait sa partie, la porte s’ouvre, donnant passage à une douzaine d’officiers prussiens du régiment de Wrangel qui tenait garnison à Dinan. Ils entrent bruyamment, faisant tinter leurs éperons et donner leurs sabres, traitant le café Joseph en pays conquis. L’un d’eux, en passant, bouscule Surcouf qui grogne et se fâche. On s’invective de part et d’autre. Surcouf, sa queue de billard à la main, après les avoir menacés de leur caresser la figure, termine la discussion en provoquant en duel tous les officiers prussiens. Ce fut un duel épique, digne de celui de Cornic. La marée était basse. Séance tenante on se rendit derrière le Fort-Royal, près le Grand Bé ; les témoins de Surcouf étaient de Mainville et Brisabarre. Surcouf tranche net le poignet de son premier adversaire. Il « démâte » le second et le troisième avec la même désinvolture. Le quatrième a le ventre ouvert d’un coup de banderole. Tous, jusqu’au onzième, tombent plus ou moins blessés. Alors, Surcouf se tournant vers son dernier adversaire : « Restons-en là, si vous voulez bien, monsieur. Il est bon que vous puissiez raconter en votre pays comment se bat un ancien soldat de Napoléon.”

– Louis Gallouédec, inspecteur général de l’Enseignement

A.C.M.

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VEIAS DA AMAZÔNIA

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Amazonas. Brasil. Março de 2018.

A cidade Manaus é urbanização, carros, ônibus, asfalto, fumaça e gente. O porto também é movimentado, mas basta pegar um pequeno barco, subir o rio Negro na direção onde ele se encontra com o Solimões, mudar então de águas escuras para águas claras, seguir a mata verde que se abre criando suas ruelas alagadas, para então estar em meio à mais pura natureza.

É um misto de encantamento e receio estar no meio dos igarapés, esses canais que se formam no meio da floresta devido à água que sobe e alaga a floresta, formando “veias” de acesso. E a época de cheia nem começou ainda. Os ribeirinhos que moram em palafitas tem suas casas lá no alto, mas sabem que isso vai mudar em breve. Não posso deixar de pensar nos grandes peixes, cobras e outros “monstros amazônicos” que devem estar passando por debaixo do barco.

Paramos por um momento, não sei quanto. Motor desligado. O silêncio vai dando lugar aos sons da floresta, que conversa e conversa enquanto eu perco a noção do tempo.

A.C.M.

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TORRE DE DEFESA

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Torre de Belém. Lisboa. Portugal. Fevereiro de 2017.

Construída durante anos, por mãos cristãs e muçulmanas, a Torre de Belém defende Lisboa do mar aberto, numa época em que tanto ficar quanto partir tinha seus riscos.

Quantos navios indo e vindo devem tê-la guardado na memória. Quantos fados cantados tristemente devem ter tido a torre como única companhia às mulheres depois dos maridos desaparecerem no horizonte.

Hoje, a torre não defende mais, apenas encanta sob os cliques dos celulares.

A.C.M.

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TRILHAS DIFÍCEIS E PRAIAS ESCONDIDAS

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Barra da Lagoa. Florianópolis. Brasil. Agosto de 2017.

Não satisfeito em só ver as montanhas que circundam a praia da Barra da Lagoa, visto o tênis e subo as trilhas dos povos antigos, dos povos de hoje, as trilhas que criam acessos às muitas praias ao redor.

A vista que tenho daqui do alto justifica a compreensão antiga de que somente algo sagrado pode ter desenhado as montanhas nessas formas belas e perigosas. Eu, pequeno, consigo me localizar ao ver o desenho das praias ao longo da costa e sigo o percurso até chegar na praia escondida da Galheta. Então passo para a praia Mole e, com muito esforço, vou até o recanto da praia do Gravatá, daonde só posso voltar.

Os ancestrais que habitaram esse lugar durante tantos séculos, homens do sambaqui, índios e depois europeus devem ter se arrepiado com as formas, sons e mistérios daqui. Saberiam eles que ainda pode-se sentir o mesmo arrepio hoje?

A.C.M.

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DONA JOAQUINA TURBULENTA

 

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Praia da Joaquina. Florianópolis. Brasil. Agosto de 2017.

Atravesso a ilha passando pela lagoa da Conceição e encontro as praias das quais só ouvia histórias do verão, que ainda não chegou. Mesmo com o vento frio que provoca as ondas que explodem nas pedras, atravesso a praia da Joaquina e busco o ponto de vista do mar.

Imagino quem teria emprestado nome próprio a este lugar. Teria sido a dona Joaquina uma pacata rendeira de coração turbulento como as ondas intermináveis? Teria sido ela tragada por essas ondas ou seduzida por elas?

Eu não resisto a lutar um pouco com as ondas, entrando no mar gelado. O sol fraco de Agosto me consola quando saio.

A.C.M.

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COIMBRA DE ESTUDO E DE BOEMIA

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Coimbra. Portugal. Março de 2017.

Um dia de folga me traz até Coimbra, ver uma das mais antigas universidades do mundo. Já que não sou estudante, aproveito com calma o caminho de estreitas ruelas seculares, herança de conquistadores muçulmanos e cristãos, que ainda se encontram por aqui. O triste fado acompanha a caminhada e um café me faz desenhar algo num recanto agradável, que um dia já foi um conflituoso caminho de passagem entre dois arcos de pedra.

Sigo subindo até chegar aos prédios cheios de salões reais, bibliotecas secretas, prisões estudantis e lembranças em pedra dos criadores deste grande centro de estudos. O vinho verde da noite e as repúblicas fazem da cidade também um centro da boemia. Atento às curvas das ruelas, já vou descendo me equilibrando.

A.C.M.

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