AO REDOR DO COLISEU

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Roma. Itália. Fevereiro de 2017.

Caminho ao redor do Coliseu, o sol quente contrasta com o vento frio. É o fim do inverno. Aquele tigre já deve estar sentindo calor, penso. Mas ele encontra forças para avançar no gladiador distraído, que passava um papo na filha daquele nobre esnobe. Que estranho bicho de estimação! A francesa tão blasé se admira e eu quase perco de ver o pistoleiro americano puxando a máquina fotográfica na rapidez de um turista japonês. O romano gordinho solta o cigarro que tentava fazer enganar sua idade. Ninguém está vendo essas marcas de tiro? diz a professora responsável pela excursão da quinta série. Pouca gente lá em cima nota. Estão preocupados com as ruínas vazias da arena que tenta reaver sua glória.

A.C.M.

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O DUELO DE SAINT-MALO

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Saint-Malo. França. Abril de 2017.

Não foi aqui no Fort-Royal que aconteceu? pergunto a Robert, que passa andando apressado. Surcouf! diz ele, Surcouf! Me apoio nas muralhas que dão vista para a silhueta de Saint-Malo. Ele resolve dar um tempo na frente da minha garrafa de vinho e eu o ouço se gabar: Tava eu, Mainville e Brisebarre naquela pocilga do Café Joseph. Eles que entraram era doze, prussianos filhos da puta! Batiam as esporas, latiam em alemão. Só esperei um deles esbarrar em mim pra iniciar o fogaréu. Desafiei todos os doze para um duelo. Cortei o pulso do primeiro. Feri o segundo e o terceiro com a mesma desenvoltura. O quarto abri a barriga num golpe. Todos, até o décimo primeiro, caíram. Então me virei para o último e disse a ele: “Vamos parar por aqui, se você quiser, senhor. É bom que você possa dizer em seu país como um velho soldado de Napoleão luta.” Surcouf me deu uma piscadela e esvaziou mais uma taça.

A.C.M.

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AMAZÔNIA

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Amazonas. Brasil. Março de 2018.

A sucuri gigante passa quase desapercebida e o condutor do barquinho finge que não vê. Os pescadores com água até a cintura dizem que as piranhas só aparecem para comer se houver sangue! Visto de volta a camisa, não vou mergulhar hoje. Mas se você quiser eu espero, diz o condutor, fingindo que o esforço que faz para o motor pegar é só um passatempo. A palavra natureza se enche de significado enquanto puxo meu caderno e desenho, sem a pretensão do nanquim preto decodificar tudo isso.

A.C.M.

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TORRE DE BELÉM

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Torre de Belém. Lisboa. Portugal. Fevereiro de 2017.

Ela parece chorar para o vento, para o mar que vira rio, para a bendita Torre de Belém que a protege. Só não protege de levar seu marido embora, embarcado numa das tantas naus que desaparecem no horizonte. Ela parece chorar, mas quando o rapaz da guitarra portuguesa dedilha, ela canta. Quando os celulares fotografam, ela atrapalha. Quando o guia oportunista tenta explicar as pequenas torres muçulmanas encurvadas naquela platitude cristã, ela parece chorar para o vento.

A.C.M.

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TRILHAS DIFÍCEIS E PRAIAS ESCONDIDAS

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Barra da Lagoa. Florianópolis. Brasil. Agosto de 2017.

As índias nuas não ligam de passar pelos turistas alemães, loucos para tirar as meias, os tênis, as camisetas que aqui não servem para nada. O morro da Barra da Lagoa desafia quem só está passando por este sacrifício para tirar a roupa lá na praia da Galheta. Os gordos se arrependem de tanta cerveja. Esse sambaqui ainda não parece ser compreendido pelos conquistadores metalizados que passam por mim empurrando e fingindo que uma trilha mais antiga que eles não existe.

A.C.M.

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DONA JOAQUINA TURBULENTA

 

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Praia da Joaquina. Florianópolis. Brasil. Agosto de 2017.

Ela costura as rendas mais bonitas da ilha. Mas precisa ser tão perto do mar, tão lá daquele lado das pedras? As ondas daquela praia turbulenta levam embora maus nadadores, maus amores e óculos mau ajustados. A Joaquina ainda se perde nessas pedras, ainda se perde nesse mar. Olha lá como o mar explode perto dela. E já está de noite. E já não a vemos mais.

A.C.M.

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AS LADEIRAS ESTREITAS DE COIMBRA

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Coimbra. Portugal. Março de 2017.

O cavaleiro árabe é antigo nesse bairro. Seu avô empilhou todas essas pedras. Esqueceu de falar sobre o que tinha antes, é verdade, mas o cavaleiro cristão sabe essa parte da história. Eles não se encontrariam hoje nessa ladeira estreita se não fosse esse café e essa fadista chorosa. Ela nem percebe seu marido olhando a venezuelana exibicionista que tira as vestes de pedra enquanto as outras erguem as vestes de pano.

A.C.M.

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